quinta-feira, 20 de setembro de 2007

CRIANÇA

Na minha sofrida infância eu era feliz. Embora não pudesse brincar como as outras crianças, devido à rígida educação que recebera, tinha plena liberdade de criar um mundo particular no universo infinito da imaginação, onde eu mergulhava numa gota de orvalho ou passava horas escalando, sofregamente, um grão de areia.
Na minha liberta adolescência eu era infeliz, por estar preso à decisão tomada de arquivar o mundo que criara na infância para atender às rígidas exigências do mundo adolescente.
Somente hoje, que já atingi a maturidade, sinto-me livre para dizer aos jovens de todas as idades: - Não arquivem seu mundo infantil! Mas, se forem obrigados, devido a certas circunstâncias, a faze-lo, recorram sempre a esses mesmos arquivos, pois neles estão as bases de uma maturidade equilibrada. Foi uma criança quem me deu este conselho, quando me viu assim...

Olhar perdido, no Céu meditando,
meu pensamento prossegue viajando,
até que vê, nessa viagem, surgir
aquele exemplo de inocência pura
a transmitir tão sublime doçura,
naquela criança feliz a sorrir.

Lindos cabelos soltos e cacheados,
a brisa leve os mantinha esvoaçados
mostrando aspectos bastante infantis.
Naqueles olhos um brilho mavioso,
iluminava um riso tão mimoso,
que de lembra-lo me sinto feliz.

Vive sorrindo, sempre a nos chamar:
Vem com a gente na areia brincar!
Faz castelinhos, como agora faço!
É lindo vê-la, transcendentalmente,
em seu sublime corpo reluzente,
levantar vôo, se perdendo no Espaço!

De olhos abertos ou fechados vejo
todo o real mundo, onde muito desejo
com essa criança tão pura morar;
ultrapassar a linha do horizonte,
de tobogã brincar, descendo o monte
e em qualquer ponto do Universo estar!

É no semblante puro dessa criança
que deposito toda esta esperança!
Onde hauro forças para me reerguer!
Ainda estaremos juntos novamente!
Esperançoso me sinto contente,
com mais vontade de existir e ser.

Eu fico triste vendo uma criancinha,
igual a mim, quando essa idade tinha,
pensar que o mundo é uma continuação
daquele lindo, onde viveu outrora!
Por isso vemos que ela as vezes chora
e os pais não sabem qual a explicação.

Quero que Deus a conserve risonha!
Oh! Criaturinha que hoje me acompanha!
Pra que eu prossiga com você sorrindo!
Sabe? Este mundo onde eu vivo, é tão triste,
que, muitas vezes esqueço que existe
você do Espaço meus passos seguindo!

POESIA SEM FIM

Mais uma vez a alma que sou se liberta do corpo que tenho,momentaneamente, para se encontrar com seres que amo e amarei eternamente.
Mais uma vez a criança em mim se exterioriza, livre de preocupações com rima, métrica ou gramática e escreve estes versos!...


Na areia da praia,
eu estava a escrever.
Em forma de raia,
alguém tentou ler.
Eu lhe disse: Saia
do mar para ver!
Ela falou: caia
na água, sem morrer!
A gente desmaia!
Me pus a dizer,
e ela, sem vaia:
venha! Pode crer!

Eu obedeci,
sem nada falar
e na água cai,
sem saber nadar.
Com ela desci
ao fundo do mar.
Mil peixinhos vi,
suspensos no ar.
Feliz me senti,
não quis mais voltar
e a ela pedi:
deixa-me ficar!

Ela não deixou!
Levou-me pra areia.
Sorrindo falou:
A gente semeia
o amor que te dou.
Deus me presenteia
o vigor que sou,
vigor de baleia.
Se escuro ficou
a gente clareia...
Depois se afastou
pro mar, sua aldeia.

Enquanto eu chorava,
tristeza sentia,
o vento soprava,
a mata gemia,
a folha voava,
no ar se perdia,
a onda quebrava,
na praia batia,
o céu se fechava,
depois se abria,
e eu esperava
pra ver quem surgia.

Naquele momento
o céu foi se abrindo...
como em pensamento,
um rosto surgindo.
Todo o firmamento
tornou-se tão lindo,
que meu sofrimento
foi logo sumindo.
De contentamento
eu a vi sorrindo
e seu sentimento
foi me seduzindo...

Eu desconfiei
que ela fosse um mito
e me aproximei
deste ser bendito.
Depois o toquei,
não fiquei aflito.
Surpreso gritei,
não ouvi meu grito.
Seu olhar fitei;
como era bonito!
Com ela explorei
o Espaço infinito.

Lembro, ela pedia:
Escreva pra mim!
E eu escrevia
na areia, assim:
Não deixe que um dia
eu seja ruim!
E ela sorria,
dizendo-me: Sim,
serei o seu guia
nesse mundo caim
e sua poesia
não mais terá fim!

À RAINHA DO MAR

Quando rasgaste o manto escuro da minha noite sem luar com a tua luz branca, misturando-se ao azul marinho do céu, provocaste a chuva de prata que emoldurou as águas do mar da minha vida, transformando-me em poeta; e eu, alimentando a pretensão de poder descrever-te, ó mágica aparição! Com rimas tão pobres escrevi estes singelos versos:



No teu semblante amigo, este sorriso,
me faz sentir o quanto ainda preciso
ser bem mais eu, para te merecer!
Das tuas mãos jorram mil pérolas raras,
que se diluem no seio das águas claras
do mar sagrado onde hei de te rever.

Essa roupagem linda que te veste,
emite um azul supremo, ultraceleste,
tão suave e claro que igual nunca vi!
A tua aura amiga, translúcida e pura,
lança em meu ser toda calma e ternura
que necessito pra chegar a ti.

Destes teus braços que têm me envolvido,
como se eu fosse o filho mais querido,
vejo tuas mãos espalmadas pra frente,
num gesto doce, tão sereno e amigo,
que nos convida a vivermos contigo,
todo esse amor que tens, eternamente.

Descendo as lágrimas pelo teu rosto,
não nos revelam profundo desgosto,
e sim, vontade de nos ajudar;
de nos erguer ao plano onde hoje estás,
que infinito é em amor, carinho, paz,
luz, fé, beleza e um saber milenar.

Dizem que és dona do oceano que vemos.
Pra mim, possuis aquele que em nós temos,
não esse mar sujo que nos rodeia.
Pois o que vemos sei que é a expressão
deste que banha o nosso coração,
sob teu Sol, que agora nos clareia.

Se a luz e a cor da tua aura nos envolvem,
os nossos maus pendores se dissolvem,
tais como trevas sob a ação da luz,
dando lugar á mais sublime calma,
nos invadindo as profundezas d’alma,
a nos lançar na trilha de Jesus!

Mãe, minha mãe! Agora, como criança,
choro e te imploro um pouco de esperança,
de ser um dia o que queres que eu seja!
Quem erra sofre e quem padece chora.
Quem necessita, se com fervor ora,
Merece ter a luz que hoje deseja!

ÊXTASE

Qual o poeta que diante do mar não desata os laços que o prendem ao corpo e não sai volitando nas asas da imaginação, em busca dos seres amados e que ao encontra-los não se sente tentado a desejar que esse momento se perpetue?
É neste estado que fico sempre que estou numa praia deserta.


Sempre que estou numa praia deserta,
a minha mente à luz do Sol, desperta,
para poder desperta volitar.
Vejo o “Astro Rei” sumindo no horizonte,
brincando, qual criança, atrás do monte.
É minha mente a se deliciar!

Se o corpo dorme, logo a mente acorda.
A paz de espírito em mim transborda,
se nesse instante penso num sorriso.
Olho pro céu e, transcendentalmente,
percebo um ser em nuvem reluzente,
me convidando a entrar no paraíso.

eu, sem coragem de mover os lábios,
logo me inspiro no pensar dos sábios,
que Deus á Terra com carinho enviou;
e vejo-a, mãe, sem auxílio dos olhos;
mas em Espírito, lá nos refolhos,
toda a beleza que se apresentou.

Perco a noção de tempo, ignoro espaço,
sinto uma força desatar o laço
que prende à Terra todo o meu viver.
E, voando, alcanço o mundo mais distante!
Nesse momento sou como um viajante
que tem por meta, nunca mais morrer.

Minh’alma, então, extática, de joelhos,
busca entender todos os bons conselhos
que sua vivência tem pra me ofertar.
Diga-me, Mãe, que fazer desta vida?
Qual a missão desta alma tão sofrida
que erra mas, sempre querendo acertar?

Como eu queria que o tempo parasse
e este teu filho nunca mais voltasse
a ver nos homens o seu lado mau!
Ah! Quem me dera dar adeus ao medo,
pra descobrir, então, todo o segredo
desse intercâmbio tão transcendental!

Eu Lhe prometo, Espírito de Luz,
serei fiel às lições de Jesus,
chaves da minha auto-libertação.
Bem sei que às vezes me sinto esquecido
que benefícios tenho recebido,
e sua presença traz recordação.

PENSE EM DEUS

Eis que mais uma vez o Sol, divino astro rei, risca o céu da minha pátria encontrando-a, desta feita, encoberta por espessas nuvens, dificultando porém, jamais impossibilitando o seu trabalho de iluminação, aquecimento e manutenção da vida dos que ali habitam.
A sua luz, embora reduzida, iluminou os pingos de chuva que, ao caírem na poeira da estrada se transformaram em gotas lamacentas e ao se precipitarem na pétala da rosa se transubstanciaram em gotas diamantíferas a saudarem o Criador.
Pena que todo esse espetáculo, embora visto por todos, somente foi apreciado pelo poeta que assim narrou:


Pingos de chuva penetram a terra...
Contornos surgem lá do alto da serra...
A cerração vem nos anunciar:
“Mais um inverno está se despedindo!”
As gotas d’água sobre o solo caindo,
são despedidas de quem quer ficar.

Forma-se um arco-íres multicolorido,
dando à paisagem um novo sentido,
mostrando as cores dos raios solares,
que há muito tempo as nuvens esconderam,
somente agora é que reapareceram,
iluminando os bosques e pomares.

Vem um Sol tímido se aproximando,
sem aquecer, somente iluminando
com a sua luz amiga toda a mata;
e a plantação viçosa, ainda molhada...
verdinha! À luz do Sol iluminada,
um coruscante dourado retrata.

Um céu de um lindo azul, inigualável,
nos aparece de maneira afável;
um vento fresco nos acaricia!
A poça d’água reflete as estrelas;
os nossos olhos não conseguem vê-las,
devido a luz do Sol, durante o dia!

Essa paisagem que estou descrevendo,
confessar devo, hoje não a estou vendo,
e, sim, sentindo-a, cá dentro de mim!
Qualquer um pode, muito bem, viver
no mundo lindo que não pode ver!
Só se consegue ser feliz assim!

Pense no mar quando estiver sofrendo!
Pense na nuvem a Lua escondendo!
Pense naquele rio cristalino!
Pense na força de uma cachoeira!
No deslizar de rochas na pedreira!
No que falou o “Sublime Peregrino!”

Todo esse mundo e mais é seu, meu amigo!
E assim será pra sempre! Ouça o que eu digo!
Pois ele está nos pensamentos seus!
Pense no bem e ele ressurgirá!
Todo o Universo aos poucos se abrirá!
Simplificando, amigo, pense em Deus!

sábado, 19 de maio de 2007

CONTA E TEMPO



Deus pede estrita conta do meu tempo.
É forçoso do tempo já dar conta.
Mas, como dar sem tempo, tanta conta,
eu que gastei sem conta, tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo,
dado me foi bom tempo e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh! Vós que tendes tempo sem ter conta!
Não gasteis vosso tempo em passa-tempo!
Cuidai, enquanto é tempo em fazer conta!

Mas, ah! se os que contam com seu tempo,
fizessem desse tempo alguma conta!
Não chorariam, sem conta, o não ter tempo!

Laurindo Rebelo

sábado, 31 de março de 2007

CAUSA PRIMÁRIA


Da causa primária, expressa e incriada,
nasceu o Universo, coisa complicada
para os cientistas que a querem explorar.
Pois, em verdade, o Universo que vemos
é a expressão desta causa que temos
em todos nós como átomos no ar.

Dali nasceu o nosso pensamento,
que é uma fusão do nosso sentimento
e nossa arte de ponderar, razão.
Tais qualidades em igual esplendor,
formam a maior força interior,
chamada "força da imaginação"

Tal imaginação acumulada,
pelo desejo é logo impulsionada;
ela em si, é uma livre energia;
a vontade é que em matéria a condensa,
tal qual poeta que pra compor pensa
e quando quer se transforma em poesia.

Imaginou-se outrora um céu de estrelas.
Eis que a vontade de um dia vê-las
condensou energias pra formá-las
e as fez surgir em pleno firmamento.
Ao mesmo tempo, o mesmo pensamento,
fêz-se observador para apreciá-las.

Por isso, ao ver um ser vejo a expressão
do Criador, ou seja, a criação,
que sua imagem e semelhança tem.
Me referindo a alguém neste meu verso,
falo na essência de todo o Universo
que sei haver no fundo desse alguém.

Por isso cada ser tem um ambiente;
porém, não pra viver eternamente,
e sim, somente um tempo merecido.
"Ele", o Criador que nele há,
somente "Ele" é que levá-lo-á
pra viver noutro mais desenvolvido.

Eis um exemplo vivo do progresso!
Aqui materializo, com sucesso
os pensamentos que existem, e não meus,
para dizer que progredindo estamos;
...da pedra ao Homem...todos caminhamos
para esta causa primária que é Deus.